Meritocracia e desigualdade

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*Por Gabriel Trigueiro

  1. A cilada da meritocracia e a soma de dois problemas

No livro A cilada da meritocracia, Daniel Markovits argumenta que o sistema meritocrático é um mecanismo composto por pelo menos dois problemas distintos. O primeiro é o tratamento da educação como mero passaporte de ascensão social para o ingresso na elite. A qualificação se concentra em uma casta supereducada e diminuta, que vence com ampla margem de vantagem a competição pelas vagas das melhores escolas e universidades dos Estados Unidos — o que lhes garante, logo, os melhores diplomas. O segundo é a transformação do mercado de trabalho, que passa a gerar empregos de superqualificação e lucrativos, responsáveis pela sustentação dessa alta casta meritocrática. Ambos os problemas se retroalimentam, portanto.                                                                      

Até a década de 1950, a maior parte das empresas norte-americanas era liderada por “ricos preguiçosos”, tal qual os descritos em A teoria da classe do lazer, de Thorstein Veblen, em 1899. Esses homens iam trabalhar usando roupas mais adequadas para uma reunião no country club do que para o ambiente frio e impessoal a que fomos nos acostumando ao longo das décadas. Passavam a tarde bebendo martínis e trataram com esgar de desprezo, e como filisteus e “rufiões grosseiros”, a nova classe de capitalistas que começou a emergir a partir da década de 1960. A série Mad Men (2007-2015) demonstra à perfeição, entre muitas outras coisas, esse antagonismo entre a elite quatrocentona de dândis decadentes (Bert Cooper e até Roger Sterling) e a nova geração de capitalistas que, basicamente, tinha vindo do nada (Don Draper e Pete Campbell).                                       

  1. A desigualdade norte-americana ontem e hoje

É impossível discutir a desigualdade nos Estados Unidos e não discutir o modelo meritocrático que a tem acelerado nas últimas décadas. Em meados dos anos 1960, um CEO de uma grande empresa ganhava vinte vezes o valor de um trabalhador médio da produção. Hoje, essa diferença chega a trezentas vezes. O lucro de um sócio de um escritório de advocacia de elite na década de 1960 regulava cinco vezes o valor do salário de sua secretária. Hoje, é em média quarenta vezes maior. O caso do setor financeiro é ainda mais agressivo: David Rockefeller, quando se tornou o presidente do Chase Manhattan Bank, em 1969, ganhava cerca de cinquenta vezes o salário de um bancário. Já Jamie Dimon, que comanda o JP Morgan Chase, recebeu, em 2017, mais de mil vezes o salário de um bancário comum.

  1. O erro da crítica progressista

Muitas vezes, a crítica dos progressistas à meritocracia é bem-intencionada, mas equivocada, pois é moralista e desatenta a questões estruturais complexas e cheias de nuances. A desigualdade norte-americana não é causada por vilões ou por perversões (nepotismo e corrupção, por exemplo) de um sistema que seria originalmente virtuoso. Particularizar um problema estrutural é sempre um tiro no pé. A desigualdade social nos Estados Unidos é um desdobramento gerado pelo funcionamento à perfeição do sistema meritocrático. A lógica interna da meritocracia é antidemocrática por sua própria natureza: promove a sucessão dinástica do status e da riqueza de geração a geração.

*Gabriel Trigueiro é doutor em História Comparada pela UFRJ

Saiba mais sobre os livros

  • A cilada da meritocracia

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