Como é feita a capa de um livro: os bastidores de Querida tia

Ilustradora Brunna Mancuso detalha processo de criação da capa de novo livro de Valérie Perrin

5 minutos

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Por Brunna Mancuso*

Minha trajetória com Valérie Perrin

Sou designer e ilustradora, trabalho principalmente com aquarela, guache, digital, e tenho quase 20 anos de experiência profissional — sendo parte deles dentro do próprio mercado editorial, que sempre foi muito presente na minha vida como artista e leitora.

Minha relação com os livros da Valérie Perrin começou de forma inesperada: a diretora de arte Elisa von Randow viu uma ilustração minha chamada This Feeling of Mine, criada com aquarela e guache, e achou que ela casava perfeitamente com a narrativa sensível de Água fresca para as flores. A imagem foi escolhida para a capa da edição brasileira, e, depois do sucesso do lançamento, fui convidada pela Intrínseca para criar a ilustração de Três, desta vez com briefing exclusivo baseado na história do livro.

Acredito que o que une essas capas — e talvez explique a identificação imediata dos leitores — é justamente o alinhamento entre o meu estilo de ilustração e o tom poético e delicado das narrativas da Valérie. Gosto de pensar que há um clima visual construído com cuidado para cada história, mas com uma identidade reconhecível entre os três livros.

Um reencontro com o universo de Valérie Perrin

Assinar a capa de Querida tia, de Valérie Perrin, foi mais que um convite para voltar a um universo já familiar — foi uma nova oportunidade de aprofundar o diálogo visual que venho desenvolvendo com a Intrínseca desde Água fresca para as flores e Três.

Fiquei imensamente feliz com o convite da editora. Além de capas de livro serem um tipo de trabalho editorial que me deixa muito realizada, essas colaborações anteriores foram extremamente bem-sucedidas e acolhidas pelo público. Sinto que meu estilo conversa com a estética sensível e delicada das histórias da Valérie, e isso cria uma conexão visual autêntica com os leitores brasileiros.

Uma das coisas que mais me animaram neste novo projeto foi descobrir que Querida tia é um livro cheio de mistério, o meu gênero literário favorito! Nada me instiga mais como artista do que mergulhar em narrativas que envolvem segredos, memórias e camadas escondidas.

Uma mala cheia de memórias

Cada elemento da capa foi escolhido com muito cuidado. A mala aberta, as fitas cassete, os papéis e documentos, o galhardete do Gueugnon FC e até a postura da personagem principal — tudo isso foi pensado para dar ao leitor pistas do enredo, sem entregar demais. A ideia era criar uma cena que evocasse uma memória, um mistério e também uma relação afetiva.

O maior desafio foi encaixar tudo isso dentro do meu estilo de pintura, sem perder a sensibilidade nem o mistério. Queria que o leitor sentisse que a personagem está imersa naquele universo deixado pela tia, vasculhando memórias preciosas e tentando montar uma história incompleta.

O rosto que não se revela

A personagem que aparece na ilustração está com o rosto oculto, algo que já havia feito em Água fresca para as flores. Essa é uma escolha estética e simbólica: acredito que, quando o rosto não é revelado por completo, há espaço para que cada leitora se projete na protagonista. Gosto de deixar esse espaço em aberto, tanto nos meus trabalhos autorais quanto nos projetos editoriais. Rostos ocultos ou olhares interrompidos me remetem a personagens fortes, silenciosas e cheias de camadas.

Técnica e atmosfera

A cena foi pintada em aquarela, com finalização digital. Gosto da fluidez que a aquarela traz, e nesse caso ela ajudou a reforçar o tom melancólico e contemplativo da narrativa. Os muitos objetos espalhados ao redor da personagem ajudam a construir esse clima íntimo e investigativo — afinal, boa parte da trama gira em torno da mala deixada pela tia e do mergulho da protagonista nas camadas da memória.

Um mistério entre três histórias

Entre as três capas que criei para a Valérie, essa é a mais descritiva visualmente. Ela entrega mais elementos da história já no primeiro olhar, mas sem perder o ar de mistério. Ainda assim, fiz questão de preservar a coerência estética com os outros dois livros. Ao ver os três juntos, sinto que existe uma unidade visual, ainda que cada um fale de uma história diferente.

E minha esperança é que essa imagem de capa seja apenas a porta de entrada para os mistérios, memórias e afetos que o livro reserva.

*Brunna Mancuso é artista visual, designer e ilustradora com quase 20 anos de trajetória, especializada em aquarela, guache e tinta a óleo. Suas obras retratam figuras femininas em momentos de introspecção, leveza e conexão, explorando camadas de cor, luz e texturas. Além de seu trabalho autoral, atua como ilustradora com ampla experiência em projetos comerciais e editoriais, sempre mantendo uma linguagem sensível e expressiva.

Saiba mais sobre os livros

  • TRÊS
  • Água fresca para as flores
  • QUERIDA TIA

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