O que nos torna bons líderes? | A autora de Lutos corporativos responde à sua dúvida

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A psicóloga e suicidologista Mariana Clark compartilha insights essenciais para a formação de bons líderes no ambiente corporativo atual

*Mariana Clark é psicóloga, escritora, suicidologista e especialista em Psicologia Positiva e manejo da Saúde Mental no contexto organizacional. Além de autora da obra Lutos corporativos, é colunista no Valor Econômico e mentora de saúde mental na plataforma on-line Top2You. Clark realizou uma palestra sobre luto no TEDx Blumenau. Depois de dezoito anos trabalhando no mundo corporativo, desde 2020 se dedica a levar o cuidado ao centro das relações de trabalho por meio dos processos de acolhimento, letramento emocional e capacitação para lideranças.


Estamos vivendo tempos complexos, com mudanças constantes em uma sociedade que produz cada vez mais sintomas. Na minha rotina como psicóloga e consultora, tenho notado relatos preocupantes: as pessoas se sentem desafiadas pela enorme quantidade de exigências cognitivas, tecnológicas, biológicas e sociais, que se opõem à nossa capacidade cada vez menor de dar conta das atribuições. Ou seja, dispomos de baixo aparato psíquico e baixo repertório para suportar a alta demanda dessas responsabilidades. 

Se nossas estratégias de enfrentamento estão comprometidas, inevitavelmente vamos para um lugar de ansiedade e impotência. Porém, a impotência não combina com trabalho, tampouco com metas, resultados e responsabilidades. 

Para mim, a maior competência de um líder é justamente extrair o que seus liderados têm de melhor e levá-los à sua máxima potência. Mas se considerarmos o contexto, essa conta parece não fechar. Afinal, como conseguiremos levar os indivíduos dentro das organizações a alcançar a melhor das performances por meio da liderança considerando todas essas pressões internas e externas?

Os líderes estão em crise, pressionados por todos os lados, seja por seus gestores diretos, seja por suas equipes, suas famílias e decerto pela angústia da solidão de cargos de liderança, que vêm acompanhados do peso de se obter um ótimo desempenho a qualquer custo.

O que antes era encarado com certo grau de controle e conhecimento hoje já é tido como insuficiente. Como sustentar conversas difíceis sem ter todas as respostas? Como encarar o choro? Como lidar com o silêncio em situações em que não há o que se possa falar ou fazer? 

Esta tem sido a realidade de muitos gestores: perguntas sem respostas e ameaças constantes oriundas das incertezas, das inseguranças e da preocupação de perder o cargo ou até o emprego.

Diante de tantos desafios, quem poderia sanar os medos desses líderes? Com quem eles podem contar?

Se não fossem as barreiras sociais e o tabu da competitividade, a rede de apoio entre os pares já poderia ser uma potente ferramenta de validação entre aqueles que vivem as mesmas dores, mas que sempre insistiram em trilhar caminhos mais longos em função da resistência a uma suposta “perda de poder”.

Em geral, os pares vivem as mesmas questões e, quando se unem e apoiam uns aos outros, constroem laços e vínculos que ultrapassam as barreiras organizacionais. Se juntar aos seus iguais  possibilita o acesso a diferentes concepções para situações parecidas, amplia a troca de experiências e oferece conforto à medida que diminui a sensação de isolamento e aumenta a sensação de pertencimento. 

Comece por aqueles com quem você já teve alguma interação e se mostraram solidários. Aproxime-se daqueles que em algum momento lhe ofereceram ajuda. Estenda a mão a quem naquela reunião difícil apoiou sua decisão. Mesmo que a princípio não haja intimidade, experimente. Dê o primeiro passo rumo à conexão, mesmo que haja certo grau de risco envolvido nessa decisão.

Quando oferecemos o que temos de melhor, costuma ficar difícil para o outro resistir. Que possamos nos valer da parceria entre os pares para manejarmos melhor nossas falhas, nossos sintomas e nossas dores, e assim criarmos uma comunidade que se apoia e colabora entre si. Quanto maiores os afetos, mais baixos os conflitos. Quanto maior a consideração pelo outro, maior a chance de cultivarmos um ambiente mais leve e afetuoso. Afinal, estamos cada vez mais intolerantes a hipocrisias e dissimulações.

*Conheça Lutos corporativos, de Mariana Clark. Uma obra inovadora, que aborda a necessidade latente do mundo corporativo de passar por um processo de humanização, focado na diminuição dos crescentes índices de adoecimento — por exemplo, com a depressão e o burnout. Para Clark, é necessário desenvolver líderes, liderados e áreas de Recursos Humanos que, para além do olhar preocupado com resultados e impacto nos negócios, enxerguem e gerenciem a qualidade dos relacionamentos entre as pessoas e coloquem o cuidado no centro das relações.

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