Katábasis e a crítica ácida ao ambiente das universidades

Confira o texto de Mellory Ferraz sobre a nova fantasia dark academia de R.F. Kuang, autora de A Guerra da Papoula e Babel

5 minutos

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Por Mellory Ferraz*

Ao escolher Katábasis como título de seu novo livro, a premiadíssima R.F. Kuang já promete uma grandiosa e épica aventura ao submundo. Por isso, quando soube de seu lançamento, eu já imaginava que teríamos uma crítica ao universo dos clássicos, ou melhor, das universidades.

Sou o tipo de leitora que se empolga com um ambiente literário tão hostil e desafiador quanto o Inferno. Cheguei a tatuar o poeta Dante junto a uma frase de A Divina Comédia — livro que serviu de inspiração para o Inferno retratado por R.F. Kuang. Também sou o tipo de leitora que teve coragem (ou ingenuidade, diriam alguns) de fazer uma graduação e um mestrado sobre literatura. A junção de fantasia, universo acadêmico e Inferno me fez correr para a leitura de Katábasis. É um prato cheio para quem viveu ao menos seis anos tentando desviar de tantas pessoas tóxicas.

Conheça o novo livro de R.F. Kuang

O livro narra a jornada de dois personagens ambiciosos tentando construir um império intelectual em um terreno movediço. Alice Law e Peter Murdoch são arqui-inimigos acadêmicos, orientandos do mesmo professor, Jacob Grimes, e admirados por serem extremamente inteligentes, dignos de suas matrículas na Universidade de Cambridge, uma das maiores e mais prestigiadas do mundo. No universo de Katábasis, a magia é um campo da ciência, e, enquanto Law foca sua pesquisa na parte linguística necessária para a realização de feitiços, Murdoch se dedica aos estudos sobre a estruturação matemática deles. Complementares ou opostos? Essa questão perpassa todo o livro, à medida que vamos desvendando o que está por trás (e além) de tanto ressentimento que os dois nutrem um pelo outro, imersos em uma competição de quem recebe mais recursos ou o favoritismo do orientador. No entanto, esse ressentimento encontra a melhor (e maior) das ambientações literárias: após a morte de Grimes, Alice e Peter vão até o Inferno para trazer de volta essa figura — maquiavélica e abusiva — que, com apenas uma carta de recomendação, pode tornar o futuro deles brilhante.

Mais do que apenas valorizar o trabalho do pesquisador acadêmico, o novo livro de Kuang — que além de escritora, é pesquisadora e conhece os pormenores desse universo — aproveita para criticar tudo aquilo que justamente o desvaloriza. Acompanhar Alice Law e Peter Murdoch em sua aventura pelo Inferno escancara vários aspectos da academia que são… bem, absurdos, para dizer o mínimo.

Muitos confundem o trabalho acadêmico com hobby ou com pura paixão. Você deve aceitar que seu trabalho seja invisibilizado por amor à ciência, à literatura, ao conhecimento. Não importa que, como qualquer ser humano, você precise de uma moradia digna, de comida, um sistema decente de saúde e lazer. Aliás, entretenimento é a primeira coisa que lhe é negado como algo essencial; espera-se que você deixe de se divertir e de ter hábitos saudáveis para dar conta de toda a exigência do mundo acadêmico, sejam custos, demandas intelectuais ou prazos. Ao retratar Alice e Peter vivendo uma rotina de exaustão física e mental, precisando abdicar inclusive da própria saúde e de relacionamentos para atender a uma expectativa inumana, Kuang propõe uma reflexão crítica a respeito daqueles que, como qualquer trabalhador, precisam de uma vida digna e valorizada para continuar a desenvolver o conhecimento que beneficia toda a sociedade. 

Em alguns momentos, Katábasis me provocou um asco tremendo por me fazer reviver comportamentos monstruosos que são normalizados, principalmente porque estamos falando de um ambiente tradicionalmente ocupado por homens. 

Essa história não teria a mesma importância se deixasse de abordar quão sexista pode ser o ambiente das universidades, onde muitas vezes a relação hierárquica se faz presente na dinâmica de professor e discípulos. Sabemos quão frequente é o abuso de poder de professores, em geral homens, em relação aos alunos, muitos deles mulheres. Quando há qualquer possibilidade de sucesso profissional, o cenário que se desenha para os personagens de Kuang se torna agoniante.

Foi com essa agonia que percebi como é compreensível a decisão de Alice de ir ao submundo, mesmo depois de ter sido explorada por seu orientador, de quem vai atrás em terras demoníacas. Porque demoníaca é a sua vida, e demoníaca também é a sua mente. E demonizar práticas tão asquerosas do mundo acadêmico é o principal objetivo de Katábasis.

*Mellory Ferraz é o nome acadêmico de Mell Ferraz, como a booktuber é conhecida nas redes sociais. Ela é formada em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e possui mestrado em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com foco na obra da escritora britânica Virginia Woolf. Além de pesquisadora, por meio do “Literature-se” (canal no YouTube e conta nas redes sociais) atua há 15 anos como criadora de conteúdo literário na internet.

Saiba mais sobre os livros

  • KATÁBASIS
  • IMPOSTORA: YELLOWFACE
  • BABEL
  • A guerra da papoula

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