20 anos de corrupção

A imagem de um funcionário público enfiando um maço de dinheiro no paletó desencadeou o escândalo do mensalão, em 2005. A prisão de um doleiro investigado por lavagem de dinheiro tornou-se o fio da meada para devassar os esquemas bilionários da Petrobrás, em 2014. A implantação do “orçamento secreto” foi a chave para identificar operações suspeitas de corrupção que ampliaram o apoio parlamentar para Jair Bolsonaro, em 2020.
Nas últimas décadas, a vida pública brasileira tem sido marcada por escândalos envolvendo políticos, altos funcionários e empresas prestadoras de serviço. Após cada um deles, surgia a esperança de que o país, estarrecido diante dos valores desviados, havia finalmente alcançado um divisor de águas, e que, de ali em diante, a corrupção deixaria de dominar o cenário político eleitoral. Mas esta esperança seria logo destruída por novas revelações. Esta é a realidade retratada em 20 Anos de corrupção.
Com mais de 30 anos de experiência no jornalismo político, Ivo Patarra se debruçou sobre um vasto material – arquivos de jornais; investigações da Polícia Federal; inquéritos e denúncias dos Ministérios Públicos; delações premiadas; sentenças judiciais – para montar uma radiografia dos principais casos de corrupção no Brasil nos últimos 20 anos.
Nesse impressionante documento, preciso e ponderado, o autor discute também a ineficácia da justiça no combate à corrupção sistêmica, e suas consequências. “Os mais pobres”, escreve Patarra, “justamente os que mais necessitam da ação do poder público, são os que pagam o maior preço pela corrupção. E a real consequência dos fatos e das práticas aqui relatadas é a continuidade do ciclo de desigualdade, pobreza e subdesenvolvimento que vivemos”.
“Um amplo documento sobre a corrupção no Brasil moderno.”
Fernando Gabeira
FOLIAS DE APRENDIZ

Livro de memórias, romance de formação, crônica de costumes. São muitas as facetas destas Folias de aprendiz. Para celebrar seus 70 anos de vida e 54 de carreira, Geraldo Carneiro reúne lembranças da infância e da juventude que refletem também uma época de ouro do Rio de Janeiro e da música popular brasileira.
O olhar encantado do mineiro que aportou ainda criança no Rio nos transporta para os dourados anos 1950, quando seu pai dava expediente como assessor do presidente Juscelino Kubitschek. As memórias infantis misturam, então, a descoberta da literatura, os jacarés na praia de Ipanema e bastidores do poder – com personagens ilustres, como Jânio Quadros e Garrincha.
Com idas e vindas no tempo, Geraldo reconstitui seu mapa de afetos e divide com o leitor lembranças cômicas e comoventes. A convivência com intelectuais e artistas, como Paulos Mendes Campos e Jacob do Bandolim, que frequentavam as reuniões organizadas por seus pais; a entrada precoce na vida artística, aos 16 anos; as primeiras parcerias na música e no teatro; os porres com Vinicius de Moraes; a amizade de quarenta anos com Millôr Fernandes; as prisões e exílios de amigos durante a ditadura militar.
Entre a melancolia e o humor, o autor reflete sobre a singularidade de uma geração que vivenciou, por um lado, as revoluções culturais e sexuais e, por outro, a violência e o medo impostos pelo regime ditatorial.
Folias de aprendiz não é uma biografia, mas um manifesto de amor – à poesia, à música, aos amigos, à liberdade. Como adverte o autor logo nas primeiras páginas, “aqui só há a geografia sentimental de alguém assediado pelo delírio”.
SEMPRE UMA ESCOLHA

Em 2018, Felipe Rigoni foi a maior surpresa política do Espírito Santo. Aos 27 anos, sem nunca ter exercido um cargo eletivo, recebeu 84.405 votos, tornando-se o segundo deputado federal mais votado do estado e a primeira pessoa cega a ser eleita para o Congresso Nacional. Sua campanha incorporou a ousadia e o pioneirismo que marcaram sua trajetória.
Diagnosticado aos 6 anos com uma doença degenerativa nos olhos, desde cedo ele teve de superar as limitações impostas pela cegueira progressiva — que se tornaria total aos 15 anos. Rigoni se especializou em quebrar barreiras e superar expectativas. Convenceu os pais de que deveria cursar a faculdade de engenharia de produção em outro estado, longe da proteção familiar, e se tornou o primeiro cego a estudar em tempo integral na Universidade Federal de Ouro Preto. Para aprimorar o inglês, foi mais longe e fez um intercâmbio nos Estados Unidos.
Movido por um desejo profundo de contribuir para seu país, decidiu “estudar para ser um bom político”, conquistou uma bolsa e foi aceito para o prestigioso mestrado em políticas públicas na Universidade de Oxford. Como trabalho de conclusão, propôs sua candidatura a deputado federal.
A cada desafio, Felipe travava uma batalha íntima com um sentimento constante. “O medo está presente em quase tudo o que faço, até hoje, ainda que em menor medida. Não enxergar assusta. Só tem uma coisa que é um tiquinho maior do que o medo na minha vida: a vontade de evoluir, de dar certo.”
Em Sempre uma escolha, Felipe Rigoni relata sua experiência no Congresso e sua crença numa política livre de dogmas e fundamentada nas melhores práticas. Liberal na economia, ele acredita que uma política voltada para igualdade de oportunidades, combate aos privilégios e incentivo ao empreendedorismo representa a forma mais eficaz de combate à terrível desigualdade que marca o país. No prefácio do livro, o renomado economista Marcos Lisboa afirma que a sua geração falhou na construção de um país mais próspero e menos desigual, mas que jovens como Felipe Rigoni resgatam “a esperança de que a nova geração possa ser diferente”.
HISTÓRIA DE UMA VACINA

Em menos de um ano, ela levantou do zero o financiamento, as equipes técnicas e até mesmo algumas das instalações por onde passaram os mais de 10 mil voluntários dos testes da vacina Oxford/AstraZeneca no Brasil. Sue Ann Costa Clemens, médica, professora e pesquisadora brasileira, foi responsável por coordenar os estudos nos seis centros de […]
BAHIA DE TODOS OS NEGROS

O estado da Bahia abrigou uma das maiores confluências de negros escravizados do Brasil colonial, junto com Rio de Janeiro e Pernambuco. Nenhum outro, porém, tem a herança africana tão flagrante em sua cultura e população. O que teria acontecido, sobretudo na capital, Salvador, de diferente dos demais lugares brasileiros que também passaram pelo processo […]
Tempestade perfeita

Em meio a uma torrente de populismo e desinformação, sete nomes da imprensa refletem sobre os desafios do jornalismo no Brasil
Falso mineiro

Nascido e criado em Belo Horizonte, filho de imigrantes judeus — daí o “falso mineiro” do título —, Simon Schwartzman faz parte da geração de cientistas sociais brasileiros que se formou nos anos 1960, tendo vivenciado o golpe militar, a ditadura, o exílio e a abertura democrática. Esse grupo foi responsável pela modernização das ciências […]
O caminho do centro

No primeiro semestre de 2018, diante do quadro tenebroso do estado do Rio de Janeiro — minado pela corrupção generalizada, com dois ex-governadores presos, uma gravíssima crise financeira e a ausência de alternativas políticas renovadoras —, o advogado carioca Marcelo Trindade concluiu que devia se posicionar. Não bastava apenas ocupar cargos técnicos no setor público […]
Liberdade igual

A liberdade é o atributo essencial da humanidade do homem. Escolher o próprio destino e construir a própria visão de mundo são elementos fundamentais do que significa ser humano. Mas como viver é conviver, a liberdade deve ser igual, de modo que todos e cada um possam ser livres à sua maneira. Somos igualmente livres […]
Sem data Venia

Luís Roberto Barroso se tornou conhecido dos brasileiros por sua atuação corajosa, lúcida e invariavelmente comprometida com o interesse público como ministro do Supremo Tribunal Federal. Mas seus horizontes intelectuais transcendem as responsabilidades como juiz. Ele é, há décadas, um estudioso das grandes questões da vida brasileira e mundial. Em Sem data venia, Barroso escreve […]