Um filme para ler

3 minutos

3 minutos

Por Daniele Machado*

Livros que viram filmes são um tema que provoca arrepios em alguns leitores. Aquela história de que você tanto gosta, os pequenos detalhes e os diálogos que o ajudaram a construir imagens e sensações tão particulares, de repente estão ali: enormes, em cores e totalmente desvirtuados pela criatividade de outra pessoa. Quando mais nova, confesso, eu fazia listas, e uma das mais preciosas era a de “Livros a que não devo assistir de novo”. Essa fase das listas passou, e o conservadorismo também. Atualmente, já consigo assimilar o livro, o filme, a peça etc. como experiências diferentes, e me permito a opção de gostar de tudo, às vezes mais, às vezes menos, mas sem nenhum pudor.

Por isso, na última terça-feira, foi com animação que cheguei à pré-estreia de Os Pinguins do Papai, o simpático filme que estará hoje nas salas de cinema do país, livremente inspirado no livro Os pinguins do Sr. Popper — um homem comum, com mulher e filhos comuns, que, sem mais nem menos, recebe pelo correio uma remessa extraordinária: um pinguim de verdade.

Os oitenta anos que separam a adaptação cinematográfica e a primeira edição do livro justificam as licenças mostradas na tela: o pintor de paredes da década de 30 é agora um ambicioso corretor de imóveis e a família Popper não divide mais a mesma casa — pai e filhos convivem em finais de semana alternados —, mas o charme e a diversão da história continuam lá, encantadoramente personificados em oito pinguins tão expressivos e cheios de personalidade que dá mesmo vontade de, como Jim Carrey, abrir a porta de casa e topar com um engradado refrigerado vindo do Polo Sul.

O texto original nasceu pelas mãos do casal Richard e Florence Atwater. Ele, que faleceu antes de ver o livro publicado, ficou fascinado pelos pinguins após assistir ao então recente documentário With Byrd at the South Pole, que cobria a expedição antártica realizada entre 1928 e 1930 pelo notável Almirante Byrd, um dos mais famosos exploradores dos Estados Unidos. Ela, depois da avaliação e da recusa de algumas editoras, foi aos poucos reescrevendo trechos do manuscrito original do marido, até que, em 1938, o livro teve sua primeira edição publicada pela editora americana Little Brown, e até hoje nunca parou de ser reimpresso.

Diz-se que foi com uma ajudinha dela que os pinguins do pintor Popper ganharam tamanho charme e personalidade. Eu me arrisco a dizer que, com a ajudinha desse filme, você vai ampliar sua lista dos “Livros a que devo assistir várias e várias vezes”.

*Danielle Machado é editora dos livros infantojuvenis e cross-over da Intrínseca.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

LEIA TAMBÉM

Leia mais Notícias

A jornada repleta de desafios e aventuras de Sophie, uma menina órfã encontrada num naufrágio ainda bebê e que busca pelo paradeiro de sua mãe
De Pripyat e o desastre de Chernobyl, na Ucrânia, a Fordlândia, no Brasil: você precisa conhecer essas cidades-fantasmas
No segundo volume da duologia “Jogos perversos”, Genevieve Grimm precisa fazer alianças perigosas para enfrentar um jogo mortal
Riley Sager está de volta com “Desconhecido”, um thriller macabro repleto de mistérios e reviravoltas