Por Fabiane Pereira*

A vida de Glennon Doyle Melton nunca mais foi a mesma depois que ela participou de uma dessas correntes que, vira e mexe, aparecem no Facebook. Na lista de 25 “segredos”, ela escreveu logo no número 1 algo que nunca tinha dito a ninguém, nem mesmo ao marido e pai de seus filhos:
Sou uma bulímica e alcoólatra em recuperação, mas ainda me pego sentindo falta de comer compulsivamente e do álcool da mesma forma perturbada com que uma mulher pode sentir falta de alguém que a espanca quase até a morte repetidamente.
A lista chocante acabou sendo sua salvação. Ao se expor nas redes sociais, Glennon começou a receber mensagens de mulheres que também sofriam em segredo. Depois do post, ela criou um blog para compartilhar sua jornada de dor, amor e autodescoberta e passou a ganhar a simpatia, o afeto e a solidariedade de milhares de pessoas espalhadas pelo planeta.
Glennon é uma mulher como sua mãe, ou vizinha, ou amiga, ou como a irmã de um amigo. Talvez seja você mesma. É uma mulher que passou por “poucas e boas” — como diria minha avó —, mas que não se deu por vencida. Ao narrar sua história, sem filtros, no livro Somos guerreiras, ela pode ajudar muitas de nós a repensar nossos papéis na sociedade como mãe, esposa e mulher.
As regras secretas, incontestáveis, sobre como ser uma mulher são: Seja Magra. Seja Bonita. Seja Discreta. Seja Invulnerável. Seja Popular Seguindo a Liderança dos Homens Respeitados. Sexo, álcool e distúrbios alimentares são apenas formas de uma mulher honrar as regras ocultas e chegar a algum lugar. Da infância à idade adulta. Da invisibilidade à relevância. Há um estilo de vida que se espera de uma mulher bem-sucedida, e a bulimia, a bebida e o sexo são apenas ferramentas necessárias para o desenvolvimento desse estilo de vida.
Apesar do apoio incondicional da irmã e dos pais, escrever salvou Glennon. Foi assim, primeiro sozinha e depois em contato com outras mulheres, que ela entendeu que a autoestima que procurou por toda a vida não dependia de nenhum aditivo nem de ninguém, mas somente dela. “Quando termino e olho para o texto, a sensação é a de olhar para um espelho mais cristalino do que qualquer espelho de verdade em que já tenha me olhado”, conta Glennon nas páginas de Somos guerreiras.

Aliás, permanecer casada foi uma de suas maiores vitórias. Não por acreditar que estar casada traz alguma vantagem, mas por crer que criar uma família estruturada é um trabalho diário, árduo e em parceria. Craig Melton, seu marido, não foi uma muleta mas a mola propulsora e paciente que ajudou Glennon nesse processo de cura.
Para conhecer mais sobre Glennon, não perca a participação dela na ótima série documental apresentada pela comediante Chelsea Handler, disponível na Netflix. Ali, ela se mostra, mais uma vez, de corpo e alma. Assim como eu, tenho certeza de que você também vai querer compartilhar seus posts com a hashtag #MEREPRESENTA. Uma última dica: após ler este artigo (e o livro), ouça “Hero”, na voz de Mariah Carey, bem alto porque, como diz Glennon, “a música é sempre um lugar seguro para a prática de ser humana”.
>> Leia um trecho de Somos guerreiras
Fabiane Pereira é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela ESPM e em Formação do Escritor pela PUC-Rio. É mestranda em Comunicação, Cultura e Tecnologia da Informação no Instituto Universitário de Lisboa. É curadora do projeto literário Som & Pausa e toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação. Foi apresentadora do programa Faro MPB, na MPB FM.