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Entrevistas

O futuro está ali

Um papo com os autores do livro Logo, logo: Dez novas tecnologias que vão melhorar e/ou arruinar tudo
  • por Intrínseca
  • junho 29, 2018

6 minutos

  • por Intrínseca
  • junho 29, 2018

6 minutos

Por Alexandre Matias*

Depois que a tecnologia tomou conta do nosso dia a dia graças à popularização dos computadores, dos smartphones e da internet, nosso fascínio por um futuro próximo com ares de ficção científica parece ter diminuído, especialmente devido à falta de imaginação frente à complexidade das previsões do que pode vir por aí. O livro Logo, logo: Dez novas tecnologias que vão melhorar e/ou arruinar tudo, escrito pelo casal Kelly e Zach Weinersmith, tenta redefinir esta noção de futuro ao focar em novas maneiras de utilização de ideias científicas que podem mudar completamente nosso futuro — da mesma forma como a era digital já transformou o presente.

Fascinados pela ciência, os dois têm projetos individuais on-line: Kelly é bióloga e coapresentadora do podcast “Science… Sort of”, enquanto Zach desenha e escreve os quadrinhos “Saturday Morning Breakfast Cereal”. Juntos mantinham um podcast, o The Weekly Weinersmith, suspenso depois do nascimento dos filhos, em 2014. “Essa é a primeira vez que trabalhamos num livro juntos e foi um projeto colaborativo desde o início”, os dois explicam. “Kelly fez as entrevistas, Zach fez os desenhos e nós dois fizemos a pesquisa e o texto juntos.”

Com um texto leve, bem-humorado e um tanto afeito à apreensão nervosa (principalmente nos cartuns de Zach, quase sempre com um pouco de razão), Logo, logo mergulha em assuntos densos e complexos como a impressão de órgãos humanos, a mineração de asteroides no espaço, questões sobre energia, medicina, biotecnologia, estatística e inteligência artificial, sempre mostrando como avanços nestas áreas vão impactar diretamente nossa rotina. Em uma troca de emails, conversamos sobre o livro, ficção científica, futuro e paranoia.

 

Como vocês tiveram a ideia de fazer Logo, logo?

Somos grandes nerds, mas também somos pessoas muito céticas. Achamos que seria divertido pesquisar tecnologias estranhas para mostrar o que é possível e o que é loucura.

 

Como foi a dinâmica de escrever o livro juntos?

Nós não nos matamos! Na verdade, foi muito legal. A maior parte do trabalho em um projeto como este é a leitura de muitos livros e documentos. Então líamos muito e conversávamos à noite depois que as crianças iam dormir. Tínhamos uma boa divisão de trabalho e nossas habilidades são complementares, então as coisas fluíram bem tranquilamente.

Kelly e Zach Weinersmith

A era digital trouxe a velha ideia de futuro para nosso cotidiano e hoje acessamos a internet em aviões e fazemos chamadas de vídeo como se fossem coisas que sempre tivéssemos feito. Mesmo os clássicos da ficção científica falam em anos que já passaram ou estão muitos próximos (2001, 2012, 2019…). Perdemos o encantamento diante do futuro?

Amaríamos se as pessoas ficassem menos pessimistas em relação ao futuro! Achamos que parte do motivo de termos tão poucos livros tentando prever o futuro é que as coisas realmente ficaram complicadas! Em 1970 você acreditaria que hoje nós já teríamos uma base lunar. Mas você não teria previsto o avanço de nossos computadores ou como estaríamos conectados. Parte do pessimismo em relação ao futuro talvez venha do fato de que essas fantasias não se materializaram.

Os dois principais temas da ficção científica dos anos 1950 eram viagens espaciais e robôs. Acontece que viajar pelo espaço é realmente caro e desenvolver inteligência artificial é algo bem mais difícil do que esperávamos. Em suma, achamos que as pessoas talvez não entendam o aspecto econômico que envolve estas tecnologias. Dessa forma, tentamos ensinar por que estas coisas são tão difíceis para que as pessoas pensem de forma realista, mas ainda com entusiasmo, sobre o futuro.

 

Como vocês chegaram ao número de tecnologias abordadas no livro?

Originalmente queríamos fazer 25, mas, à medida que começamos a escrever, descobrimos que funcionaria melhor se tivéssemos capítulos mais longos, com explicações mais detalhadas e mais histórias engraçadas. Então continuamos a cortar e a condensar até que chegamos a dez tecnologias bem diferentes umas das outras e relativamente fáceis de serem explicadas.

 

Quais foram os aspectos mais incríveis e terríveis que descobriram ao pesquisar para o livro?

São muitos para serem listados! Mas uma coisa que foi realmente incrível é que talvez seja possível criar uma bactéria que fique no seu corpo, colha suas informações e depois as entregue para um cientista. A coisa mais aterradora foi provavelmente a ideia de conectar nossos cérebros com computadores para que eles possam melhorar. Uma vez que isso for possível, uma porta será aberta para um novo mundo estranho e assustador.

 

Qual é o papel da ficção científica na previsão do futuro?

Achamos que há uma espécie de ecossistema criado entre ciência e ficção científica, onde eles se afetam mutuamente o tempo todo. A ficção científica dá ideias para os cientistas e inspira jovens a seguirem carreira na ciência. E cientistas podem criar novas coisas que também inspiram a ficção científica. E o ciclo se repete. A ficção científica tem um papel especial ao prever os perigos e as preocupações éticas nos quais os cientistas talvez não estejam pensando.

 

Teorias terraplanistas, criacionismo e todo tipo de pseudociência são comuns atualmente nas mídias sociais: estamos vivendo numa época perigosa para a ciência. Como ela pode atravessar esta fase obscura que está encarando?

Difícil dizer. Uma coisa que pode ser importante, mas que há poucas pessoas estudando, é algo chamado de “a ciência da política científica”. Em resumo: temos muitos programas públicos e privados feitos para criar mais cientistas ou criar uma sociedade mais cientificamente alfabetizada. Mas nós não temos uma boa ciência que possa nos dizer o que funciona!

 

*Alexandre Matias é jornalista, cobre música, ciência e tecnologia há mais de vinte anos e sua produção está concentrada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br)

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  • entrevista, Entrevistas, Kelly Weinersmith, Logo Logo, tecnologia, Zach Weinersmith
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