O papel da escravidão e do colonialismo na desigualdade

Segundo artigo da série inspirada na obra de Thomas Piketty

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As desigualdades que vemos hoje não surgiram ontem. Muitas são fruto de processos que remontam a séculos atrás. É o caso da escravidão e do colonialismo, como mostra o economista francês Thomas Piketty em “Capital e ideologia”.

É impossível compreender a estrutura das desigualdades modernas sem considerar o peso dessa herança. Ex-colônias inglesas e francesas, por exemplo, foram obrigadas a pagar enormes somas de dinheiro a escravocratas. Ou seja: com a abolição da escravidão, os governos entenderam que os escravocratas deveriam ser indenizados, e não os escravizados.

Em 1825, a França impôs ao Haiti uma indenização equivalente a mais de três anos da renda da nação caribenha à época. O destino do dinheiro era o bolso dos escravocratas da mesma França que, menos de 40 anos antes, foi o palco da revolução de lema “liberdade, igualdade e fraternidade”. A dívida perdurou até 1950.

Com ou sem escravidão, o colonialismo sempre gerou desigualdades. Afinal, a população das colônias pagava impostos para manter o padrão de vida de seus dominadores, tendo pouco acesso a empregos, educação formal e à Justiça.

Ao estudar o orçamento de ex-colônias francesas, Piketty mostra que, na década de 1920, os europeus eram 10% dos funcionários públicos em Madagascar, mas retinham 60% da folha de pagamento.

No caso do Brasil, a relação entre escravidão, colonialismo e desigualdade é visível até hoje ― está presente em tudo: no acesso à educação, na estruturação do mercado de trabalho, na escolha dos representantes políticos na forma como se vive e como se morre.

Um dos muitos exemplos disso é a desigualdade no direito ao voto. Mesmo depois da abolição e da proclamação da República, cidadãos analfabetos não tinham esse direito, sendo que na década de 1950 representavam metade da população. Só em 1989, com as primeiras eleições diretas após a ditadura militar, podemos considerar que o voto universal de fato passou a vigorar no país. 

“Na prática, não somente os ex-escravos, mas sim os pobres é que foram excluídos do jogo político durante um século, dos anos 1890 aos anos 1980”, diz Piketty.

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