Abaporu, prazer

Estamos todos tortos e isolados, mas esperançosos de que o tempo gauche irá se endireitar.

3 minutos

3 minutos

Do sol ao solo, a figura de cabeça encolhida se expande sem se mexer. Nessa tela, tudo é solidão; uma solidez estática. Na presença desse momento, o que se vê é a ausência de movimento. Há um cacto, um astro, um chão e um personagem disforme, desengonçado, desproporcional: Abaporu, prazer.

Sem dúvida, Abaporu é a figura mais famosa da Tarsila do Amaral. Quiçá, a obra brasileira mais reconhecida internacionalmente. É a pintura que, de certa forma, inaugura a presença do antropofagismo na arte da madrinha do modernismo nacional. Criado em 1928, o quadro foi um presente para o então marido da artista, o escritor Oswald de Andrade. Eles decidiram nomeá-la Abaporu, a palavra tupi-guarani que representa “homem que come”. O batismo traz essa ideia de comer as referências externas e regurgitar em algo brasileiro — conceito de todo o Movimento Antropofágico.

Chama atenção o crânio pequeno encaixado em um corpo agigantado. Observa-se a valorização da potência braçal, do esforço físico do indivíduo e, ao mesmo tempo, o esvaziamento do pensamento, da cultura no ser. Como se este fosse condenado a não pensar ou a pensar exclusivamente em produzir sem questionar. Não há o equilíbrio psíquico e físico que todos devemos buscar: mente sã, corpo são. Aqui, tudo é tão desencaixado. A mente está visivelmente exausta, encolheu. O restante corpóreo permanece imenso, imerso na busca de força para se levantar.

Outro ponto que puxa a atenção dos meus olhos é a secura de todos os elementos representados por Tarsila. O indivíduo é árduo nesse desenho árido. Abaporu é um gigante abaixado e solitário; solidário ao sol, ao chão e ao cacto. Sua cabeça, lá no alto, encosta no céu: seu semblante é cansado. Seu rosto tristonho está mais distante do solo. A lágrima, assim, demora mais a cair. A dor parece desproporcional à esperança. O cenário não transparece nenhuma alegria. Ainda assim, esse ser sobrevive nesse espaço ausente.

Abaporu sou eu, Abaporu é você. Estamos todos tortos e isolados, mas esperançosos de que o tempo gauche irá se endireitar. E, quando tudo isso passar, não seremos mais os mesmos. O gigante (o povo!) precisa se reerguer de verdade dessa vez e só se curvar novamente se for para estender a mão aos que demoraram um pouco mais para entender que juntos somos imensuráveis!

tags

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

LEIA TAMBÉM

tags

Leia mais Notícias

A autora de “Táticas do amor” e “Amor em Roma” está de volta com um romance encantador
Nessa aventura imperdível, um grupo de amigas precisa lutar contra forças malignas para brilhar sob os holofotes
Autora de “Água fresca para as flores” e “Três” está de volta