Diário de Isabela Freitas

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12_Diário da Isabela Freitas

Eu faço amizade no ponto de ônibus.

Nem todo amigo precisa ser amigo de infância. Eu tenho vários amigos de ponto de ônibus. É isso mesmo que você leu. Por que não? Eles são confidentes, ô, se são. São verdadeiros, sinceros… Diria que até mais sinceros que muito amigo de infância. Outro dia sentei do lado de uma senhora que aguardava um ônibus para Benfica, um dos bairros mais afastados de Juiz de Fora. E durante os minutos que passamos juntas, pude saber um pouco mais sobre ela.

– Ah, menina… Não tá nada fácil, sabe.

Geralmente nossos amigos de ponto de ônibus já nos tratam como se fossemos íntimos. É algo nosso. Entende?

– Verdade. Hoje em dia tá tudo muito difícil… – respondi, soando um pouco vaga. Isso sempre funciona.

– Ele me largou. Me largou. Acredita? Anos e anos, cozinhando, passando, limpando. Fui a mulher dos sonhos de todo homem das redondezas. E o que ele fez? Fugiu com aquela vizinha mal-agradecida.

– Que canalha! – exclamei.

– Num é? Também disse isso a ele. Mas deixa, o mundo dá voltas… Ah, dá. – ela disse com um brilho nos olhos.

– Com certeza. Ele vai pagar por tudo que fez à senhora, não tenho dúvidas. – incentivei.

– E você? Tão novinha. Me lembro quando era da sua idade, e sonhava em ser atriz… Você é atriz, moça?

– Sou não. Eu tenho um blog.

– Blog? O que é isso? – perguntou a senhora interessada.

– Aquelas coisas de internet. – respondi, não muito confiante que ela fosse entender.

– Ah! – exclamou, decepcionada.

– Também escrevo livros. – disse rapidamente.

– Então você é uma escritora? Que honra! Você vai escrever sobre mim?

Analisei a senhora por um instante. Que figura única. Mesmo com o coração partido, ela ainda exalava um brilho interior, como se sua vontade de viver tivesse sido multiplicada por sua decepção. E então me dei conta de que não faz muita diferença, sabe? Entre mim, você e aquela senhora. Mulheres já foram meninas, e acho que quando se trata de um amor que machuca, nós somos mesmo todas iguais. Sofremos por um tempo, mas quando nos reerguermos… Não há quem nos coloque pra baixo. Nem mesmo esperar por meia hora num ponto de ônibus enquanto fazia 10 graus gélidos na nossa cidade.

– Pode apostar que sim. – respondi, com um sorriso no rosto.

Ela abre um espelho, dá uma checada, e responde:

– Então pode colocar lá, anota aí! Podem pisar em mim 10 vezes, mas vou me levantar 11. A gente sofre, menina, sofre sim. Mas passa. E eu sei que sempre existirão coisas melhores. Não vale se entregar à tristeza por causa de gente que não sabe valorizar o amor. A nós só resta uma coisa: continuar vivendo…

Olhei para ela espantada. Ela continuou.

– Falei bem? – perguntou um pouco insegura.

– Perfeitamente! Fiquei até sem palavras. – Respirei, e por fim disse: – Isso vai virar crônica pro meu blog, tá?

– Naquele negócio de internet, né? – Ela já estava aprendendo.

– É. Naquele negócio de internet.

Nesse momento o ônibus dela apontou no final da rua. Ela me olhou, deu uma piscadela, e disse:

– A gente se vê.

Tenho certeza. A gente se vê na próxima volta que o mundo der. Até lá!

Uma resposta

  1. Gostei dessa senhora, não se deixou abater pelo que aconteceu, escolheu seguir em frente. Acho interessante pessoas que fazem amizade em ponto de ônibus. Não tenho esse dom. Acredito que é por que na minha cidade, se você faz isso, as pessoas te olham como se você fosse maluca.

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