Pais e filhos

3 minutos

3 minutos

coluna 22_A maior tarefa do mundo é criar um filho

 

A mais complexa tarefa do mundo é criar um filho, e eu compreendo as pessoas que decidem viver sem gerar descendência. É uma opção coerente e, sem dúvida, sensata. Filho exige tempo, dinheiro e paciência ─ não necessariamente nesta ordem. De amor, então, nem se fala. Um filho precisa de amor assim como uma roseira precisa de sol. Mas, dada a natureza absolutamente doida dessa relação, salvo em raros casos, junto com a maternidade e a paternidade nasce também o amor (assim em negrito mesmo). Um amor sufocante, genuíno, arrebatador. Filho é esperança. Filho é carne viva. Filho é ar fresco. Filho é futuro.

E o futuro de um pai, se a vida andar pela estrada certa, é ser filho dos seus filhos. Mais cedo ou mais tarde, os papéis se invertem, primeiro de modo suave, quase imperceptivelmente ─ a companhia na consulta médica, um conselho, a visita diária no final da tarde para um cafezinho e um bate-papo. Depois, com os anos, as coisas mudam de maneira mais palpável e fundamental ─ muitos pais idosos vão viver com os seus filhos, ou são assistidos de perto, amorosa ou financeiramente, por eles. Os filhos crescidos começam a dar suporte aos seus pais na velhice, fechando um ciclo que pode ser difícil, mas tem a beleza intrínseca da eterna troca de papéis. Afinal, doa a quem doer, vida é transformação. Quem optou por não ter filhos, pode ter a sorte de ser adotado por um sobrinho, pelo filho de um grande amigo, por um pupilo dedicado ─ e, no fundo, é a mesma coisa, tudo aquilo que se dá, um dia volta para a gente.

E nem sei por que pensei nisso, quando eu pretendia mesmo era escrever sobre outra coisa ─ eu que estou exatamente no meio desse caminho, pois ainda sou mãe dos meus filhos pequenos, e filha dos meus pais maduros. Talvez seja somente saudade deles ─ do meu pai e da minha mãe ─ ali em Porto Alegre. E vontade de pedir um colinho, um beijo, um conselho, e ser apenas filha (a Ticia) nem que seja por uma tarde.  🙂

LETICIA WIERZCHOWSKI é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

LEIA TAMBÉM

Leia mais Notícias

A jornada repleta de desafios e aventuras de Sophie, uma menina órfã encontrada num naufrágio ainda bebê e que busca pelo paradeiro de sua mãe
De Pripyat e o desastre de Chernobyl, na Ucrânia, a Fordlândia, no Brasil: você precisa conhecer essas cidades-fantasmas
No segundo volume da duologia “Jogos perversos”, Genevieve Grimm precisa fazer alianças perigosas para enfrentar um jogo mortal
Riley Sager está de volta com “Desconhecido”, um thriller macabro repleto de mistérios e reviravoltas