Doze anos

3 minutos

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Fui visitar uma querida amiga na praia e, enquanto conversávamos, seu marido e seu filhinho tomavam banho de piscina. Era um entardecer daqueles de poesia, com um céu rosado e azul, e um calor bom acompanhado de uma orquestra de passarinhos. O menino, lindo e feliz, batia pés e mãos na água, brincando com o pai.

De repente, o tempo rebobinou e lembrei de um outro entardecer nessa mesma praia, quando meu filho mais velho tinha a mesma idade daquele menininho, e brincava com o meu marido numa casa que alugáramos há doze anos. Tenho uma fotografia dessa tarde cuidadosamente recortada e presa num porta-retratos de metal, uma coisinha intrincada como um daqueles antigos relógios de corrente. A foto, pairando sobre os anos, está pendurada num gancho no armário da nossa casa da cidade.

Na alegria daquele gurizinho espirrando água para os lados, reconheci a alegria do meu bebê, hoje adolescente. Tanto tempo se passou! Mas parece que foi ontem. Ainda me vejo do outro lado da objetiva, registrando meu marido e meu filho, sob a mesma luz, as árvores, os pássaros, tudo.

Eu me virei na cama e doze anos se passaram. Eu vasculhava o fundo da bolsa e o meu filho cresceu (e outro menino nasceu e vem crescendo com pressa). Corri até a esquina e os anos escaparam de mim. Mas aquela foto ficou, como o registro de um – entre tantos – bons momentos da vida. Não é uma fotografia especial, nem o dia, na sua serena doçura de férias,  guardou algum momento transformador. Não é uma daquelas fotos de bebês recém-nascidos, de casamento ou formatura. Não tem pirâmide, nem fundo do mar, nem a Torre Eiffeil ao fundo. Só um jardim (que nem era meu), uma cerca de madeira, a piscina retangular e comum, tingida pelo sol do entardecer de um mês de janeiro perdido no tempo. No entanto, tem uma felicidade ali, alguma coisa caseira e pacífica, inominável, dolente e inesquecível para mim. A própria vida, que passa célere, espalhando suas benesses sem muitos avisos, dando aqui e tirando ali, como uma daquelas deusas mitológicas, geniosas  e tão humanas, cujas aventuras eu adorava quando era menina.

Voltei pra casa, e lá estavam meus meninos me esperando. Pelas dúvidas, tirei uma foto. Quem sabe — daqui a mais doze anos – essa outra tarde não me tome de assalto?

 

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