Stoner

3 minutos

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John Williams Divulgação/Special Collections, / Divulgação/Special Collections/University of Arkansas Libraries

Estou sempre com um livro pelo meio. Não é muito do meu gosto, mas, eventualmente, vejo-me com dois ou três títulos pela metade, atravancando o meu pequeno criado-mudo, enquanto eu pulo de um para o outro, conforme o meu estado de espírito. Isso só acontece por dois motivos: estar fazendo pesquisas para algum trabalho (e então alterno algum romance com outro título de estudo) ou o livro que estou lendo no momento não conseguir prender a minha atenção. É quase como uma relação amorosa, creio eu — se a pessoa que está com você supre suas necessidades, ninguém fica por aí pulando o muro. Eu pulo o muro da ficção só quando a ficção não me segura.

Mas, meus amigos, com Stoner, simplesmente caí de quatro. Romance de um americano quase desconhecido por aqui, John Williams (eu nunca tinha ouvido falar dele), publicado por uma editora que eu também não conhecia, a Rádio Londres. Que livro, que livro, que livro! Acabei a leitura há três semanas — abduzida pelo narrador, devorei-o em três ou quatro noites de aflição e de encantamento. Mas Stoner não se acabou dentro de mim: tenho me pego pensando no livro, e tanto, que aqui estou escrevendo sobre ele. E lhes digo: leiam Stoner.

Tudo no livro é aparentemente comum. Até o título, Stoner, é simplesmente o nome do personagem principal, cuja vida (comum) acompanhamos desde a adolescência até o momento de sua morte. William Stoner é filho de humildes fazendeiros do interior. Num arroubo paterno, ele vai para uma universidade estudar Ciências Agrárias, e acaba se apaixonando pela literatura, formando-se em Letras às escondidas da família. Não há nada de extraordinário na existência de Stoner: ele termina a faculdade, faz alguns poucos amigos, casa com a jovem Edith, faz um mestrado, um doutorado, vira professor universitário, vira pai, compra uma casa, é infeliz no casamento, tem uma amante, deixa a amante, tem desavenças no ambiente universitário, ama e detesta seus alunos, tem problemas financeiros, tem ideias geniais, vê a Primeira Guerra, vê a Segunda Guerra, fica doente e morre. Como disse meu filho caçula: “a vida é assim: a gente nasce bebê, depois vira criança, depois vira adolescente, adulto, fica velho e morre, é só isso.”

Pois Stoner é só isso — e é tudo isso. Me fez lembrar um pouco de Phillip Roth, embora John Williams tenha uma prosa seca, controlada, econômica, surpreendentemente limpa. Stoner, baita livro!

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