Num famoso discurso na Unesco, o escritor malinês Amadou Hampâté Bâ disse que, na África, “cada velho que morre é uma biblioteca que queima”. Com o perdão da comparação tosca, pode-se dizer que, da mesma forma, toda vez que um relacionamento acaba é um universo que desmorona: um repertório enorme de piadas internas, viagens, filmes, cartas de amor, lugares, canções, rotinas e lembranças que se perdem.
Lançado há pouco mais de uma semana, meu romance Operação Impensável é o resgate narrativo de um amor do passado, feito justamente por uma historiadora. A jovem Lia se apaixona por um programador de computadores extrovertido e charmoso chamado Tito. Juntos eles constroem um mundo próprio cheio de regras esdrúxulas e expressões que só eles entendem, como frases retiradas de jogos de computador, declarações de amor inspiradas em filmes que assistiram juntos e até bravatas proferidas por líderes comunistas.
Lia é especialista em Guerra Fria, e ambos são viciados em um jogo de tabuleiro chamado Twilight Struggle, uma batalha entre Estados Unidos e União Soviética que a todo momento corre o risco de acabar em guerra nuclear. O que no início é apenas uma brincadeira acaba emulando o desenrolar do relacionamento entre Lia e Tito, numa lenta escalada de dominação insidiosa, mentiras e conflitos até o dolorido embate final.

Em seu esforço quase acadêmico de sistematização amorosa, Lia também registra um índice onomástico de referências compartilhadas pelo casal. Um exemplo é o verbete: “Água na cara, jogar.” Na explicação, o leitor descobre que uma das maiores diversões de Lia e Tito era simular uma briga durante o jantar e arremessar um copo de água na cara do outro. Ela escreve: “De início, praticávamos o rompante aquoso dentro do boxe do banheiro, onde podíamos controlar a quantidade de líquido e a força do arremesso; depois passamos para a sala de estar, vestidos apropriadamente para um jantar chique.” A graça estava em dizer uma frase de efeito, tipo: “Seu canalha! Você realmente saiu com ela!”, e jogar a água quando o outro estivesse prestes a protestar, “de modo que, além de encharcar o rosto do adversário, fosse grande a possibilidade de fazê-lo engasgar”.
(Outros verbetes dignos de nota são: “panda”, “pijama de flanela” e “pato”, animal que, no entender de Tito e Lia, é “nada mais que uma galinha impermeável”.)
A protagonista também fala dos animais de estimação da casa, três gatos e duas tartarugas, e de como o casal gostava de passar a tarde inteira conversando sem parar, interrompendo um ao outro numa barafunda enlouquecida de bobagens e contando histórias sem clímax.
É como se ela desejasse captar instantâneos de uma cidadela perdida, usando para isso todos os recursos possíveis. O resultado, que compreende o “Período de Paz” de Operação Impensável, é um álbum de colagens que mistura bilhetes apaixonados, diálogos pelo telefone, calendários, piadas soviéticas, trechos de romances, uma lista de implementações domésticas promovidas por Lia e relatos diretos sobre incidentes ocorridos no dia a dia.
A impressão é que ela precisa coletar e narrar o máximo possível de facetas do casamento, antes que ele seja cortado para sempre da memória, “como o excesso de tecido que cai da mesa de uma costureira”.

Respostas de 2
Muito interessante.
Ótimo artigo