Por Julia Wähmann*
O vídeo era uma compilação de solidariedade entre quelônios, sucessão de cenas praticamente iguais, mas nem por isso menos tenras: uma tartaruga virada sobre o próprio casco recebia cabeçadinhas e empurrões de outra de mesma espécie, até finalmente desencalhar e voltar a andar sobre as próprias patas. Durava pouco mais de um minuto, mas tive a impressão de observar aquelas criaturas em apuros por horas a fio. Instantaneamente pensei na Vanessa Barbara, em suas histórias e crônicas em que os quelônios são personagens frequentes, e me indaguei se ela seria também espectadora dessas lutas vagarosas em busca do eixo. Foi então que Operação Impensável caiu nas minhas mãos.
Já de saída é a personagem de Lia que se apresenta e introduz Tito ao leitor: ambos fãs de cinema, jogos de tabuleiro e donos de humores particulares. Ela, historiadora às voltas com uma tese sobre a Guerra Fria; ele, programador de internet; ela, agrião; ele, rúcula. Na cosmologia de Vanessa, além dos quelônios, as verduras têm um papel importante, e há uma categorização implícita na escolha de tais folhas. Em crônica de 2010 para o Brasil Econômico, a autora evoca as origens e usos botânicos e culinários da rúcula e do agrião para argumentar que aquela é “burguesa e petulante, capaz de anular o sabor dos outros alimentos […] uma usurpadora de paladares”, enquanto que este “é perseverança, é a gente simples da nossa terra”. No âmbito das bipolaridades, rúcula e agrião são uma versão vegetal do período histórico estudado por Lia, e é fácil deduzir que bandeiras cada hortaliça empunharia com afinco.

Leia um trecho de Operação impensável
No âmbito conjugal de Lia e Tito, a batalha que se trava depois de certo tempo de harmonia não é menos tensa. Unidos em matrimônio com o respaldo de um “contrato de transferência” — que certamente dará ideias a muitos leitores em vias de trocar alianças —, Lia e Tito desfrutam de uma cumplicidade costurada por imitações de cenas de filmes, incorporação da fala de políticos e estadistas em suas conversas rotineiras, bichos de estimação batizados sob a égide de grandes poetas e e-mails com declarações que redefinem toda a literatura epistolar amorosa.
Possivelmente o maior feito do casal Lia e Tito é O grande livro do cinema, escrito em conjunto depois das inúmeras sessões de filmes e séries em casa. As resenhas e sinopses francas e absurdas redigidas pela dupla são de dar inveja a qualquer jornalista responsável pelos tijolinhos das páginas de cultura — posso inclusive vê-los se contorcendo em cócegas, ou se revirando como jabutis, frente à hilaridade dos comentários acerca de enredo, atuação e pormenores de produções audiovisuais. Tomada por um otimismo extremo, comecei a calcular quanto tempo levaria assistir a todas as obras citadas pelos personagens. Acabei me perdendo nas contas. Mas, quando ainda tinha algum controle sobre a situação, contabilizei aproximadamente noventa horas, o que parece bastante razoável se considerarmos o trânsito, as filas de banco e as esperas em antessalas de consultórios médicos.
Todavia, como dói constatar, a rúcula se impõe, o molho da salada azeda e um distanciamento e algumas histórias malcontadas se estabelecem entre Lia e Tito. A paranoia inerente à guerra é o que leva Lia a desconfiar cada vez mais de seu marido que agora parece um oponente, e o que a impulsiona a traçar um plano de ação tão engendrado como as táticas adotadas por forças e ideologias contrárias que cindiram o mundo durante as décadas de Guerra Fria.
No auge do conflito, Lia é como aquela tartaruga que vê o mundo de cabeça para baixo e que sacode pés e mãos como que pedindo uma ajuda dos céus. À espera do empurrãozinho providencial, a protagonista de Vanessa se empenha em distinguir o real do inventado e imprime em seus relatos a melancolia típica de combates dos quais todos saem derrotados. Como na mágica d’A rosa púrpura do Cairo, filme de Woody Allen que Lia e Tito não viram, quero transpor a página do livro e dar minhas cabeçadas em Lia, como os quelônios daquele vídeo.
Numa atitude talvez um pouco ruculesca, com o perdão da palavra inventada, termino a leitura e disparo mensagens para alguns amigos naquele tom meio presunçoso do “você-tem-que-ler-esse-livro”. É que, ao concluir alguns livros, tenho a sensação de estar saindo de um bunker que poderia abrigar tantos outros. Sempre lamentei que a leitura não pudesse ser praticada à maneira dos filmes, em conjunto, com aquelas cutucadas cúmplices e cochichos de “vamos tentar essa tática de jogar lavanda nos vizinhos como eles fazem nesse trecho?” ou “dá para acreditar na página 76?!”. Ao mesmo tempo, a graça reside justamente na possibilidade de tornar o tempo de leitura uma experiência elástica. Assim como posso ter a sensação de assistir por horas a um vídeo que dura um minuto, posso prolongar as vidas de Lia e Tito até perder de vista, pelo tempo que dure cultivar uma pequena horta de agrião; colocar Lia de pé e convidá-la para um lanche; rever um ou dois filmes do Billy Wilder, munida de paracetamol, para o caso de uma de nós adoecer de febre sem motivo aparente.
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Julia Wähmann é escritora, publicou em 2015 os pequenos Diário de Moscou (Megamíni/7Letras) e André quer transar (Pipoca Press).

