De tanto odiar

As pessoas odeiam demais. Eu sei, estamos vivendo tempos difíceis.

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Coluna Leticia
Fonte: New Yorker

As pessoas odeiam demais. Eu sei, estamos vivendo tempos difíceis. A Petrobras está indo para o beleléu, nossas contas mensais estão indo para o céu…

Ler as notícias, hoje em dia, dá ódio na gente. Fomos rebaixados, sequestrados, vulgarizados, esquecidos, enganados, intimados a pagar a conta, financiados por ditadores e roubados por políticos. Mas, por favor, precisamos nos controlar.

Precisamos fazer alguma coisa produtiva com esse ódio todo pingando na nossa vida cotidiana feito infiltração, nem que seja um passaporte para uma viagem sem volta. Quem sabe lá na quietude das ilhas Maurício o ódio fosse diminuindo, diminuindo… Sei lá. Não sei se há corrupção nas ilhas Maurício, desvios bilionários, água potável, transporte público decente, atendimento médico e bons salários. Só sei que não quero morar nas ilhas Maurício. Por outro lado, eu moraria feliz no Uruguai, a terra do meu amigo Mauricio Rosencof — uma pessoa em cujo coração só existe luz e poesia, embora o destino e a história política tenham lhe subtraído doze anos de existência da forma mais cruel que se possa imaginar.

Você aí de dedo em riste, falando alto, xingando o cara do carro em frente, vociferando contra o verde ou o vermelho, em vez de odiar, pesquise a vida do meu amigo Mauricio Rosencof — não vou contar aqui, não. Leia os livros dele — no congestionamento, no ônibus lotado e quente, na sala de espera do médico, mas leia. A gente aprende mais com o Mauricio Rosencof do que lendo as manchetes políticas e econômicas deste nosso país — e odeia menos.

De tanto odiar, estamos ficando vulgares, tristes, cinzentos, melancólicos e com pressão alta. Estamos nos transformando em pessoas intolerantes: dedos em riste, mãos nas buzinas, carros nas vagas para deficientes. Estamos odiando o cidadão ao lado, o vizinho de cima, a moça grávida, o colega de trabalho, o senhor na faixa de pedestres. Odiar tanto assim faz mal à saúde e não nos aproxima nem um pouco de um futuro melhor.

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