Vida em comunidade

Se a vida a dois já é cheia de desafios, o dia a dia em uma comuna parece quase impossível de se aguentar.

3 minutos

3 minutos

a-comunidade-resenha
Cena do filme A Comunidade (Fonte)

Anarquistas, graças a Deus. O incrível título do romance de Zélia Gattai, que acerta em cheio nas contradições humanas, poderia também se aplicar ao filme A comunidade, a que assisti com prazer dias atrás. Seu diretor, Thomas Vinterberg, é um dos criadores do movimento cinematográfico Dogma e responsável por outros filmes de que gosto bastante, como Festa de família e A caça.

O que mais me interessou na história, muito bem interpretada, foi a desconstrução do que seja moderno e descolado. Se a vida a dois já é cheia de desafios, o dia a dia em uma comuna parece quase impossível de se aguentar.

A trama de A comunidade pode ser resumida assim: é um Cenas de um casamento, de Bergman, transportado para uma casa compartilhada por um grupo. O casal de protagonistas – um professor universitário e uma jornalista – decide convidar amigos para morar em uma casa que ganharam de herança. A relação, porém, não resiste ao mais trivial dos conflitos: uma traição.

Talvez tenha gostado do filme porque ele me despertou um sentimento nostálgico. Visitei várias vezes a comuna Niederkaufungen, na Alemanha, mais de uma década atrás, para escrever sobre seu dia a dia. A comuna fica nas proximidades de Kassel, na região central do país, onde eu morava na época.

Agora, ao pensar nos meus passeios por aquela comunidade para lá de organizada – toda a renda dos membros era dividida de forma igualitária –, também me vem à mente o livro Entre amigos, do israelense Amoz Oz, sobre a vida num kibutz. Em todos os casos (o livro, o filme e minha visita à comuna de verdade), percebo que a rotina em uma comunidade é marcada por competições e hierarquias, o que, teoricamente, não deveria existir.

No caso da comunidade de Kassel, a vida financeira era compartilhada, mas a amorosa seguia o modelo tradicional. Lembro-me que crianças no livro de Amós Oz “pertenciam” à comunidade; em Niederkaufungen, os pais biológicos eram responsáveis pela educação dos filhos, recebendo ajuda externa quando necessário (ou seja: o sistema não é muito diferente do que acontece com todo mundo).

Ao visitar a comuna, conheci uma brasileira que morava lá (a seu pedido, ela não foi retratada na reportagem que escrevi para a Deutsche Welle). No entanto, fiquei com a nítida impressão de que ela estava pronta para voltar ao mundo real. Fora para aquele lugar atrás de um amor. Como os personagens de A comunidade e de Entre amigos, estava em busca, no fim das contas, do mais trivial dos sentimentos.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

LEIA TAMBÉM

Leia mais Notícias

Os protagonistas de Melhor do que nos filmes e Patinando no amor, da Lynn Painter, se encontram em conto extra especial já disponível
Em uma releitura brilhante da origem de um dos personagens mais conhecidos da mitologia grega, Ayana Gray apresenta uma versão feminista e poderosada da história
Os piores pesadelos podem estar nos objetos mais simples: conheça a série Não mexa, um box com dois livros complementares, de Mikito Chinen
Autor de Ozymandias, José Roberto de Castro Neves reimagina a Copa de 1982 em romance metalinguístico que fala de memória e amor