Eu nunca pensei em ser astronauta

Confira a coluna de Pedro Gabriel

2 minutos

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Eu nunca pensei em ser astronauta. Meu sonho mesmo era ver minhas palavras impressas em algum jornal, num domingo. Nada contra os outros dias da semana, mas acho que domingo é um dia que parece um livro. É um dia que merece ser mais lido. As tragédias ficam em stand-by. A gente acorda em slow motion. Toma o café tão devagar que ele chega quase a amornar em nossas mãos. No seu ritmo dominical, a torradeira despeja duas fatias de pão integral pela bancada de mármore. Se fosse segunda ou quinta de manhã, ela — essa mesma torradeira — cuspiria ferozmente migalhas e mais migalhas de água, farinha, sal, carboidrato e glúten pelo chão da cozinha. 

Talvez por tudo parecer menos afobado aos domingos, o mundo se torna um ambiente propício para se perder na leitura de uma simples crônica. Quantas vezes me desencontrei lendo Rubem Braga, o gigante do gênero! Por alguns momentos, eu queria ser Rubem Braga. Mas não para escrever feito ele — seria muita pretensão minha. Ser Rubem Braga, para mim, é um motivo para avançar na escrita. Ser Rubem Braga, para mim, é ter um ponto luminoso no final dos meus instantes mais turvos. Saber que nunca serei outro além de mim é o que me motiva a permanecer no meu caminho. As pessoas que a gente admira se tornam uma espécie de lua. Ainda que distantes, elas iluminam nossas incertezas… Nos dão coragem!

Sempre projetei meus medos numa tela invisível.  Como se a minha vida fosse um filme antigo feito apenas de gestos e silêncios. Como se o meu corpo fosse uma sala vazia à espera de aplausos ilusórios. Projetar demais é uma forma de se iludir. Só pensamos no futuro e passamos a esquecer o meio do percurso. Esse meio é a base para erguer todos os nossos sonhos. Sem foco, todo sonho é oco. Eu caí nessa ilusão. A queda quase me fez desistir, mas as pessoas que a gente admira se tornam uma espécie de lua… Lembra?

Eu continuo não pensando em ser astronauta. Esse negócio de escapar da Terra firme e partir rumo ao desconhecido nunca me encantou. Escrever é minha forma de sair do mundo.  

Uma resposta

  1. Maravilhoso e sensível. Me identifico pela construção do sonho, o embasamento que dá. É bem como me sinto.

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