Subterrâneos

O passado inexpugnável nos habitará para sempre, oculto no centro palpitante da nossa memória.

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Subterraneos
No fundo, somos todos uma Roma. (fonte)

Somos nossa própria alvenaria.

Horas e dias e anos amontoam-se dentro da gente como peças e recantos de uma casa na qual o único desenho é o destino. Alguns de nós conseguem delimitar um espaço aqui ou ali por vontade própria, afinal sempre existem os estoicos.

Mas a planta geral da nossa existência é aleatória.

E os desabamentos acontecem, grandes ou pequenos. Tragédias íntimas, quem não as tem?

Falências, mortes, divórcios, doenças, sonhos que morrem e afetam profundamente os alicerces da nossa vida, derrubam paredes, interditam caminhos, escondem a vista. Podemos colocar tábuas e construir pontes que nos ajudem a atravessar essas crateras emocionais no dia a dia. Mas o passado que ruiu seguirá em cada um de nós feito uma cicatriz, assim como — oxalá! — as boas surpresas da vida às vezes nos entregam uma inesperada varanda para o mar, um sótão iluminado ou uma escada para novos horizontes.

Com o passar dos anos, todos seremos como essas cidades antigas sobre as quais o tempo vai depositando teimosamente suas incontáveis camadas, uma coisa soterrando a outra, e assim por diante, de forma que chegamos a imaginar que conseguimos esquecer certas pessoas, algumas memórias e antigas dores. Mas aí, subitamente, nos vemos obrigados a cavar uma vala, abrir espaço para o futuro, construir o túnel dos nossos dias, e lá está tudo intacto no fundo da gente, como a bela cidade de Roma com suas eternas obras do metrô — seus teimosos túneis acabam sempre topando com um palácio, ou catacumbas, ou termas, ou um anfiteatro. E os engenheiros precisam driblar esses tesouros renascidos das entranhas do tempo, contornando judiciosamente o passado que brota do chão romano por todos os lados.

No fundo, somos todos uma Roma — o passado inexpugnável nos habitará para sempre, oculto no centro palpitante da nossa memória.

Basta cavar.

E, às vezes, nem muito.

Uma resposta

  1. Lindo texto, parabéns. Estou passando por uma fase em minha vida onde estou escavando o passado e sendo obrigado a lidar com amigos que acabaram ficando no passado. Me emocionei durante a leitura.

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