A lista dos descasos, em ordem aleatória

Todos os descasos do roubo da Chácara do céu, listados.

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O museu da Chácara do Céu, no Rio de Janeiro (Fonte)

1 – O primeiro comunicado emitido pela Polícia Federal sobre o roubo ao Museu da Chácara do Céu foi destinado aos aeroportos de Rio de Janeiro e São Paulo, ao porto do Rio e à Polícia Federal Rodoviária em Duque de Caxias. Em vez de listar todas as obras levadas pelos criminosos, citou apenas três. O documento não trazia uma descrição minuciosa das obras nem fotos delas.

2 – A perícia técnica feita na Chácara do Céu na noite do crime, em 24 de fevereiro de 2006, colheu impressões digitais em pelo menos dois locais. A conclusão da análise dessas digitais — mesmo que não dessem em nada — jamais foi juntada ao inquérito do roubo, que segue em aberto.

3 – Na noite em que foi atacado, o Museu da Chácara do Céu dispunha de um sistema de vigilância, mas não de um alarme. Em poucos minutos, os criminosos desligaram todas as câmeras instaladas na casa e levaram consigo todas as fitas de VHS que mostravam o vaivém na instituição nos três dias anteriores. Os vigias não puderam reagir. Nos bolsos, tinham apenas apitos.

4 – Ao invadirem a Chácara do Céu, os quatro criminosos fizeram nove reféns: três vigias, o funcionário da bilheteria do museu, dois neozelandeses, duas australianas e um taxista que havia levado as turistas até o local. Os neozelandeses jamais prestaram depoimento, bem como o taxista.

5 – Segundo relato dos reféns, quatro criminosos entraram na mansão de três andares e por lá ficaram por aproximadamente meia hora. A Polícia Federal fez e divulgou o retrato falado de apenas dois.

6 – A primeira delegada responsável pelo caso solicitou que o telefone celular de um dos suspeitos fosse grampeado. A Justiça autorizou, mas, por questões técnicas e por falta de recursos humanos, os áudios não ficaram gravados no sistema de grampos da PF.

7 – O roubo ocorrido em 2006 não foi o primeiro. Em 1989, o museu havia sido invadido por um grupo que acabou sendo preso pouco depois. Entre as obras levadas à época estavam duas que voltariam a ser alvo da cobiça criminosa anos mais tarde: o Matisse e o Dalí. No inquérito da PF sobre o segundo roubo não há qualquer menção a isso.

8 – O ataque à Chácara do Céu ocorreu no fim da tarde de uma sexta-feira, véspera de Carnaval. A diretora do museu havia deixado a instituição mais cedo para evitar o trânsito. Seu superior, o responsável pelo Departamento de Museus, soube do caso, redigiu uma nota para o Jornal Nacional, avisou ao então ministro da Cultura, Gilberto Gil, e passou dias em Porto Alegre. Gil, por sua vez, estava no carnaval baiano. Ao ser acionado, repassou o problema ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que, por sua vez, contatou a Polícia Federal. Naqueles dias, a PF do Rio estava em plantão de Carnaval. Boa parte de seus homens estava alocada no policiamento do Sambódromo.

9 – O Museu da Chácara do Céu nunca teve em seus registros fotos em alta resolução das obras-primas roubadas. Elas também não estavam asseguradas.

10 – A diretora do museu soube do roubo, mas não retornou imediatamente à instituição. No dia seguinte, foi a um churrasco de Carnaval. Ao ser chamada às pressas para dar uma entrevista para o Fantástico, reclamou. Em vídeo, disse que os culpados pelo roubo eram os responsáveis pela segurança pública do Rio de Janeiro. O mal-estar foi geral.

Uma resposta

  1. mauro jardim disse:

    Como sempre,esse jogo de gato e rato,um empura com a barriga,e no final a culpa deve ser das obras,pois quem manda serem tão atraentes,e bonitas,valiosas………..

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