Felicidade, esse passarinho

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coluna 9_FelicidadeDe nada adianta uma janela para o verde se a gente não está feliz. Sol, mar, dinheiro no banco, flores no vaso, se a gente não está feliz não adianta. E o que é felicidade, alguém sabe me dizer? Alguém sabe devolver a felicidade perdida, como aquele pé de meia que a gente nunca mais encontrou, ou aquela caneta boa de escrever que sumiu do pote sobre a mesa e não está em nenhuma gaveta, nenhum recanto, nenhuma bolsa, nem no porta-luvas do carro ela está?

Felicidade não é uma coisa assombrosa, exuberante, grandiloquente. Ela cabe em qualquer lugar, talvez por isso desapareça mais fácil e tenazmente do que qualquer das canetas da minha mesa. Felicidade é uma coisa suave, discreta, uma coisa assim meio bossa nova, soprada, completa, redondinha. É quando tudo parece estar no seu lugar, tudo perfeitamente concatenado, encadenado, como um bom par entrelaçando pernas ao dançar um tango. Felicidade faz qualquer dia de chuva ficar bonito, felicidade é de dentro pra fora, e nunca ao contrário. Felicidade é igual a passarinho, ela não gosta de gaiola, ela voa quando quer, ela pousa onde gosta, ela é minúsculamente perfeita enquanto dura, e, depois, quando vai, deixa aquele silêncio medonho atrás de si. Felicidade vai embora sem avisos, sem gritos, sem portas batendo ─ ela é passarinho, voa e fim. E depois não me venham com passeios na areia e paisagens bonitas, quando o olho que vê não está feliz, não adianta nada, não senhor. Na verdade, até dói mais. É que nem moça de dieta na frente de uma bandeja de doces, é igual a estar gripado num jantar de cinco pratos, tudo com gosto de sabão, tudo igual, que monotonia. Quando a gente está triste, pouca coisa nos sequestra da tristeza  ─ acho que só filho mesmo, acho que só criança ou um bom poema, ou um filme daqueles. Então a gente bate asas um pouquinho pra longe da tristeza, sobe, vê o céu, até lembra o gosto de ser feliz, e então baixa de novo, feito balão sem gás, com o nariz enfiado na areia outra vez.

Quando eu era pequena, meu pai sempre cantava pra mim uma música. Um dia, em troca de uma guaraná, eu cantei a música toda e alguém lá de casa gravou. Felicidade foi-se embora e saudade no meu peito ainda mora… Era eu lá cantando, de perninha grossa, cabelo encaracolado e vestido azul. Era um tempo tão bom aquele que às vezes fico procurando aquela menininha dentro de mim, tal qual procuro minhas meias e canetas. Bastava um abraço do pai, um beijo da mãe, uma boneca de papel nova, e a gente era feliz por um dia inteiro, até dois.

Leticia Wierzchowski é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

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