O maior romancista da rua

E que grande figura era o Erico! A sua simplicidade faz falta às gentes de hoje, mesmo às gentes das letras, que costumam ser do tipo discreto.

4 minutos

4 minutos

Memorial Erico Verissimo - Fotos do Érico Veríssimo FOTO: Leonid Streliaev
Erico Verissmo por Leonid Streliaev

Estou aqui adaptando meu filho à escola nova (primeiro dia de aulas) em companhia do Erico Verissimo. Não da sua ficção, mas do próprio: leio um livro antigo, uma compilação de entrevistas concedidas pelo Erico — A liberdade de escrever, EDIPUCRS.

O banco é duro e o corredor não tem ar-condicionado (de vez em quando, alguma criança surge, rindo ou chorando, primeiro dia de escola é uma montanha-russa de emoções, mas o meu pequeno está lá dentro da sua sala e tudo anda bem). Me distraio e até choro com o Erico e a Mafalda. Tenho vontade de puxar a orelha de um ou outro jornalista chato, sorrio com o carinho que salta aos olhos na entrevista que Erico concedeu a Clarisse Lispector, e encontro até a Maria Dinorah (quando eu tinha a idade do meu filho que está nessa sala no final do corredor, Erico e Dinorah eram minhas leituras preferidas). Os anos passaram, tanta coisa passou junto com eles, mas Erico segue na minha vida — O tempo e o vento mora no meu quarto, à parte dos outros volumes da casa.

E que grande figura era o Erico! A sua simplicidade faz falta às gentes de hoje, mesmo às gentes das letras, que costumam ser do tipo discreto. Quando um jornalista chato da Veja afirma que Erico é “o único grande romancista gaúcho da atualidade” (o ano era 1971, e eu, ainda um sonho da minha mãe), Erico ri e responde: “Não repita que sou o único grande escritor gaúcho da atualidade. Reivindico para mim o título de melhor romancista desta minha rua com nome de poeta, Felipe de Oliveira. Assim mesmo porque meu filho Luis Fernando ainda não se decidiu a escrever romance.”

Sábio homem, proféticas palavras. Figura simples, seu gênio não precisava de firulas. Precisava, isso sim, da dona Mafalda — outra grande criatura. (Um dia, anos atrás, depois de ler meu romance A casas das sete mulheres, com a intermediação do seu neto Pedro, dona Mafalda me ligou, convidando-me para ir tomar um uísque no final da tarde. Eu fui e levei o meu filho mais velho, João, àquela altura um guri de um ano e meio. Ele se refestelou no colo daquela dama incrível de olhos de um azul absoluto, enquanto eu ficava lá com jeito de boba, e dona Mafalda tomava o seu uísque, que eu neguei porque sou fraca para destilados, e acho que ela não me levou mais a sério depois disso…)

E assim, de pérola em pérola, de simplicidade em simplicidade, a tarde passa e chego a uma entrevista de 1972 (Erico sofrera, havia algum tempo, um enfarte, e tomava sérios cuidados com a saúde). Dessa vez, quem pergunta é Jorge Andrade, e ele escreveu:

“Quando pedi à dona Mafalda que me falasse sobre o marido, respondeu firme:

— Erico se conhece bem e é seu próprio dono. Ele que fale.
Mas um de seus olhos está sempre, disfarçadamente, observando, perscrutando o rosto de Erico. Se ele leva a mão ao peito, ela logo pergunta:
— Que foi?
— Nada, Mafalda. Não posso me coçar?”

Dona Malfada, segundo Andrade, era uma espécie de Penélope, lutando contra o tempo com as suas agulhas de tricô, corajosa como as personagens que o próprio Erico espalhou pelos seus romances.

E assim o primeiro dia de aulas acaba e o sino toca. Lá vem meu filho pelo corredor, todo contente. Eu também estou feliz, com os ecos de Erico e Malfada na minha alma.

 

Respostas de 3

  1. O texto excelente… Leticia Wierzchowski encanta com sua leveza ao dizer deste autor fenomenal 🙂

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

LEIA TAMBÉM

Leia mais Notícias

A jornada repleta de desafios e aventuras de Sophie, uma menina órfã encontrada num naufrágio ainda bebê e que busca pelo paradeiro de sua mãe
De Pripyat e o desastre de Chernobyl, na Ucrânia, a Fordlândia, no Brasil: você precisa conhecer essas cidades-fantasmas
No segundo volume da duologia “Jogos perversos”, Genevieve Grimm precisa fazer alianças perigosas para enfrentar um jogo mortal
Riley Sager está de volta com “Desconhecido”, um thriller macabro repleto de mistérios e reviravoltas